Francisco Diez from New York City, USA
Com o aumento das operações do Immigration and Customs Enforcement (ICE) em diversas regiões dos Estados Unidos desde o início do segundo mandato de Donald Trump, milhares de imigrantes passaram a viver sob a ameaça constante de detenção e de deportação.
Nos setores que dependem fortemente da mão de obra imigrante, como agricultura, construção civil e produção, a intensificação da fiscalização provocou uma retração da atividade laboral. Esses trabalhadores ocupavam postos frequentemente caracterizados por jornadas longas, esforço físico intenso e funções evitadas por grande parte da mão de obra nativa. Para ocuparem funções essenciais em setores estratégicos da economia, os impactos das operações do ICE ultrapassaram os trabalhadores diretamente apreendidos e atingiram também as atividades produtivas que dependiam de sua mão de obra. Aqueles que já se encontravam no país passaram a evitar deslocamentos e atividades que poderiam aumentar sua exposição às autoridades migratórias, aprofundando sua condição de vulnerabilidade.
Segundo um estudo publicado pelo National Bureau of Economic Research, que investiga os impactos do aumento da fiscalização migratória no mercado de trabalho dos Estados Unidos durante o segundo mandato de Donald Trump, as regiões com maior repressão registraram uma queda no emprego de imigrantes provavelmente indocumentados que permaneceram no país. A pesquisa prevê uma queda de cerca de 5% no emprego entre homens sem documentação regular, além da redução das horas trabalhadas. Isso indica que a saída desses trabalhadores não foi compensada pela contratação imediata de outros trabalhadores. Como consequência, as empresas passaram a enfrentar dificuldades para preencher vagas e manter o ritmo de suas atividades. Em setores que dependem fortemente desse tipo de mão de obra, a redução do número de trabalhadores significou menos produção e maiores dificuldades para atender à demanda.
A retração das atividades laborais é também consequência da lacuna que os trabalhadores imigrantes detidos pelo ICE deixaram, visto que os trabalhadores americanos da mesma idade e grau de instrução não querem ocupar as vagas antes ocupadas pelos imigrantes, apesar do discurso propagado pelo governo Trump e por nacionalistas de que os imigrantes “roubavam” as oportunidades destinadas aos americanos. Entretanto, o estudo mostra que as consequências para as ações antimigratórias que o governo americano vem praticando são diferentes: o mercado de trabalho não melhorou para os nativos. Até o momento, não há como afirmar que o mercado de trabalho piorou para os nativos após as investidas do ICE contra imigrantes, mas as hipóteses variam entre o não interesse por parte dos americanos de ocupar as vagas ocupadas, muitas dessas sendo vagas de trabalho pesado em indústrias, produção e agricultura, mas também por não terem a mesma qualificação para as vagas.
Constata-se que é possível
enxergar a discrepância entre o discurso político sobre a mão de obra imigrante
e os resultados do estudo, mostrando que os imigrantes desempenham funções
essenciais, por vezes até insubstituíveis, em setores estratégicos da economia
norte americana e que sua retirada do mercado de trabalho revelou-se como uma
força de trabalho migrante mantinha a potência norte americana. Dessa forma, a
dependência de setores produtivos em relação ao trabalho imigrante mostra como
a narrativa nacionalista de trabalho árduo que o governo Trump propaga é mais
uma das farsas construídas a partir do trabalho invisível de imigrantes.