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QUEDAS NO MERCADO DE TRABALHO E AUMENTO DAS AÇÕES DO ICE: UMA RELAÇÃO INVERSAMENTE PROPORCIONAL?

Felipe Sodré Fabri / Letícia Escorcio Lopes | 09/07/2026 11:41 | Análises
IMG Paul Goyette from Chicago, USA

O segundo mandato de Donald Trump está atravessando o ano de 2026 com grandes mudanças acontecendo nos Estados Unidos, em especial perspectivas para o campo da imigração e economia. Eleito com a promessa de realizar deportações em massa e proteger as fronteiras do país, o presidente vem utilizando o ICE (Immigration and Customs Enforcement), órgão público voltado para o controle da imigração no país, para concretizar suas políticas. Desde janeiro de 2025, o país vem testemunhando um aumento generalizado nas iniciativas de controle e busca da agência que se volta, sobretudo, para regiões com um alto índice de imigração, exemplo dos estados democratas. Além de causar um alarme político e social, a intensificação das ações do ICE vem gerando algo curioso: a queda de vagas no mercado de trabalho. Segundo novo relatório da Brookings Institution, o reforço nas forças anti-imigração custou 668.000 empregos no país, especialmente em locais em que havia uma grande quantidade de fluxo econômico.


Logo, é importante analisar como essa nova realidade vem remoldando não apenas a sociedade americana, mas também sua capacidade econômica.


Quando analisados ​​os efeitos das ações do ICE, é possível notar uma queda significativa no consumo em áreas de maior atenção da agência. Segundo o professor Zeke Hernandez, pesquisador da UPENN Wharton, por meio de uma pesquisa que combina 5.000 ações do ICE com “Pontos de Interesse” (locais de busca do órgão), houve uma queda de 8 bilhões de visitas e entre 3 a 14 bilhões de dólares a menos de consumointerno. Ou seja, levando em conta a queda de postos de trabalho com essa redução do consumo e visitas em locais públicos, locais marcados por compras ou negócios, é possível denotar o impacto das medidas de Trump no contexto econômico nacional.

Além disso, como mencionado, é possível traçar a geografia dessas localidades com o ICE se voltando principalmente para regiões de grande quantidade populacional e politicamente democratas. Quando pesquisamos onde estão acontecendo boas partes das prisões do ICE, é possível notar um padrão de atividades em cidades como Nova York, Los Angeles, São Francisco, Portland, Chicago, Seattle e outros grandes centros urbanos nacionais
. Boa parte dessas cidades, além de sua enorme influência econômica e política, destaca-se por suas políticas de acolhimento de imigrantes. Na região metropolitana de Nova York, que engloba outras regiões do estado de Nova York, os latinos representaram cerca de 93% das prisões do ICE. Frente a esse cenário, é possível relacionar o aumento das iniciativas do ICE e a diminuição da atividade econômica em determinadas regiões dos Estados Unidos. Observa-se ainda um crescimento das prisões em grandes cidades com foco na população latina.


Logo, o que essas iniciativas do ICE podem afetar a economia americana nos próximos meses, considerando que o país tem enfrentado um aumento da inflação e certa desconfiança dos consumidores? Para responder a essa questão é necessário olhar para onde o impacto das ações do ICE se fez sentir de forma mais imediata: nos setores produtivos que sustentam a espinha dorsal da economia americana, com destaque para a construção civil, a agricultura e a hospitalidade (indústrias historicamente dependentes de mão de obra imigrante), que foram as primeiras a registrar os efeitos da intensificação da fiscalização.


Segundo o AmericanImmigration Council, a agricultura perdeu 155.000 trabalhadores entre março e julho de 2025, num período em que, no ano anterior, o setor cresceu 2,2%. Na hospitalidade, o crescimento da força de trabalho foi de apenas 0,2% em junho de 2025, contra 1,5% no mesmo mês de 2024. Na construção civil, o cenário não foi diferente: uma pesquisa da AssociatedGeneral Contractors of America revelou que 88% das empresas do setor reportaram vagas em aberto, sendo que quase 30% apontaram a fiscalização migratória como fator direto nas dificuldades de contratação.


O impacto, porém, não se restringe aos números acima mencionados. Em Minnesota, um construtor relatou à CNN que sua equipe de cobertura de telhados caiu de 80 para apenas 6 trabalhadores, enquanto agentes do ICE operavam nas proximidades – um colapso operacional causado não por deportações, mas pelo medo de sair de casa. Na Califórnia, as operações em Oxnard interromperam a colheita de morangos, brócolis e aipo, gerando projeções de perdas diretas entre US$ 3 e US$ 7 bilhões no setor agrícola do estado, com efeito multiplicador estimado entre US$ 5 e US$ 10 bilhões quando considerados as cadeias de embalagem, transporte e varejo. A narrativa de que a retirada de trabalhadores imigrantes abriria espaço para americanos nativos também não se sustentou na prática: pesquisadores da Universidade do Colorado em Boulder não encontrou evidências de aumento de destruição ou de oportunidades de emprego para trabalhadores nascidos nos EUA nas regiões afetadas pelas emissões; pelo contrário: em média, 1,3% a menos de homens americanos com ensino médio ou menos foram empregados nessas mesmas regiões após uma onda do ICE.


Parte do que explica esses números está em uma manifestação que vai além da remoção direta de trabalhadores por ações governamentais: o chamado “chilling effect” – ou, em tradução livre, “efeito inibidor”. Trata-se da paralisação espontânea de comunidades inteiras diante do clima de medo gerado pelas transações, e hoje observa-se que seu alcance é muito mais amplo do que se poderia suportar. Segundo a organização sem fins lucrativos de políticas públicas “BrookingsInstitution, a preocupação com detenção aumentou de 33% para 50% entre imigrantes com presença legal no país e de 12% para 31% entre cidadãos naturalizados. O que as operações do ICE produziram, portanto, não foi apenas a saída de trabalhadores documentados do mercado, mas o recolhimento de comunidades inteiras: imigrantes legais pararam de ir ao seu trabalho, famílias cortaram gastos e bairros inteiros acabaram impactando na redução da circulação econômica. É possível constatar que o efeito se propagou para setores inesperados: um estudo do influente think tank NewAmerica revelou que o aumento das prisões do ICE ocorreu em 39.000 trabalhadores imigrantes a menos no setor de creches e, como consequência, 77.000 mães americanas nativas que precisaram deixar seus empregos por falta de quem cuidasse de seus filhos. Um dos autores do estudo, o economista Chris Herbst, descreve que “o que essas políticas fazem é criar um clima geral de medo e confusão que afeta a vida das pessoas de tal forma que elas param de ir ao trabalho, param de levar os filhos à escola” (tradução livre). O paradoxo é evidente: uma política direcionada a indocumentados acabou retirando do mercado de trabalho exatamente o perfil de trabalhadora americana que o governo queria proteger.


Algo importante a se constatar é que a geografia das operações também não é neutra. Uma análise produzida pela UCLA Luskin School of Public Affairs revelou que latinos responderam por 9 de cada 10 prisões do ICE nos primeiros seis meses de 2025, independentemente de sua nacionalidade. Os de origem venezuelana registraram aumento de 361% nas detenções e as prisões comunitárias (aquelas realizadas em ruas, escolas e lojas) cresceram em 255%. Em setembro de 2025, a própria Suprema Corte autorizou o uso de raça como fator em abordagens migratórias, levando a juíza Sonia Sotomayor a anunciar em seu voto dissidente que a proposição arriscava transformar latinos em cidadãos de segunda classe.


O recorte geográfico reforça o padrão, uma vez que as operações se concentram justamente nas metrópoles de maior peso econômico do país, nos mesmos centros urbanos que respondem pela maior fatia do PIB nacional e que possuem as maiores populações latinas e as políticas mais acolhedoras para imigrantes. A fiscalização, portanto, não tem apenas um alvo étnico definido: ela incide com maior intensidade exatamente onde seu impacto econômico será maior.


E quem está do outro lado da moeda? Isto é, quem lucra diante dessas medidas? Enquanto a economia geral encolhia, um setor específico prosperava. Empresas com contratos de detenção, vigilância e logística ligadas ao ICE registraram resultados recordes ao longo de 2025. O Grupo GEO, uma das maiores operadoras de presídios privados do país, descreveu o ano como "o mais bem-sucedido em conquistas de novos negócios em sua história", com uma receita total de US$ 2,63 bilhões. A CoreCivic – hoje a maior operadora privada de centros de detenção dos Estados Unidos –, por sua vez, viu seus lucros saltarem quase 70% em relação ao ano anterior. No campo da tecnologia, a Palantir, empresa de software americana atuante como cérebro de operações militares, vigilância e logística, recebeu um contrato de US$ 30 milhões para desenvolver o ImmigrationOS (um sistema de rastreamento de imigrantes), enquanto suas ações subiam em 135% entre o fim de 2024 e dezembro de 2025.


Assim, o quadro que emerge é de uma redistribuição e não de criação de valor. Enquanto 668.000 empregos desapareciam da economia, bilhões em recursos públicos eram direcionados a uma captação de empresas privadas – muitas delas com histórico de lobby junto ao próprio governo que as contrata. A pergunta que fica é estrutural: quem, afinal, a política de fiscalização migratória foi desenhada para beneficiar? Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) de junho de 2026 mostram que os preços de vegetais frescos estão 11,9% acima do registrado em maio e a projeção para o ano é de um aumento de 7,7% nos preços de produtos provenientes de granjas e hortifrutis. No setor habitacional, por sua vez, o The Roosevelt Institute, que busca promover reformas políticas para redefinir a economia e a democracia dos EUA de forma progressista, aponta que a combinação entre a desvantagem de mão de obra na construção civil e as novas tarifas sobre matérias-primas elevou os custos de edificação, agravando uma crise de moradia que já era grave antes mesmo das deportações. Seguindo por essa viés econômico, o Congressional Budget Office constatou que o crescimento do PIB em 2026 é "parcialmente compensado pelos efeitos das tarifas e do aumento da fiscalização da imigração" – ou seja, embora a economia dos Estados Unidos cresça este ano, esse avanço seria maior ainda se não fossem os impactos negativos de algumas das políticas impostas pelo governo Trump, com destaque a duas delas: primeiro, tarifas mais altas encarecem produtos importados e insumos, o que eleva a inflação e pode reduzir o poder de compra das famílias, freando o consumo e, consequentemente, o ritmo de crescimento do PIB. Em segundo lugar, a repressão à imigração reduz a oferta de mão de obra disponível no país, o que limita a capacidade de contratação das empresas e o crescimento da produtividade.


O paradoxo político é difícil de ignorar. A plataforma que prometia reduzir o custo de vida e proteger o trabalhador americano gerou escassez nos setores que mais pressionaram a inflação (alimentos, moradia e serviços), enquanto concentrava os ganhos em empresas privadas de detenção e vigilância. Segundo a consultoria Deloitte, o consumo real das famílias deve desacelerar de 2,7% em 2025 para 2,1% em 2026, com a queda na imigração listada especificamente como um dos fatores.


Concluímos que os dados revelam não apenas uma política falha, mas sim uma política que funciona perfeitamente para quem ela foi, de fato, projetada. Enquanto os trabalhadores americanos perdem empregos, as famílias imigrantes se recolhem por medo e setores inteiros da economia se retraem, os contratos bilionários seguem sendo assinados, as ações sobem e os lucros registrados são comemorados. A promessa de proteger o trabalhador americano mostrou, na prática, uma maior transferência de riqueza da base produtiva do país para uma conquista de corporações privadas da história recente dos Estados Unidos. O ICE não está apenas deportando pessoas: está expulsando o motor silencioso que move a economia americana. 

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