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ANÁLISE ELEITORAL DO TEXAS: DEMOGRAFIA, INFLAÇÃO E INFRAESTRUTURA TECNOLÓGICA

Julia Aguiar Camacho / Maria Eduarda Prestes Duarte / Thaís Caroline Ataide Lacerda | 26/10/2026 11:29 | Análises
IMG Steve Rainwater from Irving, US

1. Reconfiguração Política e Novas Variáveis no Reduto Republicano


Em 3 de novembro deste ano, ocorrerá a denominada “Midterms", as Eleições de Meio de Mandato. O propósito principal é a escolha de ocupantes para 435 cadeiras de deputados, cujos mandatos duram 2 anos, além de 35 cadeiras de senadores, que possuem mandatos de 6 anos. As eleições estadunidenses caracterizam-se pela presença de estados predominantemente democratas, outros consolidados como republicanos e os chamados swing states, que oscilam a cada pleito. Por atuarem como os verdadeiros determinantes do resultado eleitoral, esses estados decisivos concentram as principais atenções e esforços de ambos os partidos.


Todavia, no Texas, um estado historicamente republicano, a competitividade do Partido Democrata vem crescendo de forma expressiva, impulsionada pelo peso demográfico do eleitorado latino, fato que preocupa a liderança partidária republicana. Embora este partido controle todos os cargos estaduais há quase duas décadas, uma combinação de fatores econômicos, a reação popular às políticas migratórias, os impactos da inteligência artificial e a indicação de candidatos controversos têm fragilizado esse domínio. Esse cenário pode representar a oportunidade mais concreta em anos para os democratas alcançarem maior espaço no segundo estado mais populoso do país.


No cenário nacional, estima-se que cerca de 250 milhões de cidadãos adultos estejam aptos a votar em 2026. Embora os eleitores brancos ainda representem a maioria desse grupo (61%), sua participação percentual caiu de forma contínua desde 2006. Em contrapartida, grupos minoritários ganharam espaço expressivo, impulsionados sobretudo pelos hispânicos, cuja representatividade praticamente dobrou nas últimas duas décadas e atingiu 16% do total (39 milhões de eleitores). Esse crescimento acelerado, decorrente principalmente de jovens nascidos nos EUA que atingiram a maioridade, consolida a população latina como o segundo maior grupo do eleitorado americano, destacando sua relevância decisiva no panorama políticodo país. Nesse cenário, o eleitorado latino consolidou-se como o elemento central para os rumos dos Estados Unidos, exercendo influência não apenas na disputa de 2026 no Texas e em nível nacional, mas também nas eleições presidenciais subsequentes de 2028 e 2032.


A partir disso, dados do Texas Politics Project/Universidade do Texas apontam uma crescente desaprovação da figura de Donald Trump por parte dos latinos no estado, cuja avaliação negativa subiu para 51%, ante 41% de aprovação — um forte contraste com o equilíbrio registrado em outubro de 2024. Esse descontentamento reflete uma tendência nacional impulsionada, sobretudo, pela preocupação com o custo de vida e a condução da economia. Segundo levantamento da NBC/Telemundo, 48% desse grupo demonstra maior confiança na gestão econômica dos democratas, frente a apenas 27% que preferem os republicanos.


Neste contexto, a Suprema Corte dos Estados Unidos reativou um mapa eleitoral redesenhado no Texas, o que favorece o Partido Republicano, haja vista a crescente ameaça de perda de espaço para os democratas no estado. Essa medida visou assegurar a manutenção da maioria republicana no Congresso nas eleições de meio de mandato de 2026, revogando a decisão de uma instância inferior que havia suspendido o novo traçado. Ao possibilitar a transferência de até cinco cadeiras da Câmara dos Representantes para os republicanos, a decisão protege a agenda legislativa do governo e previne eventuais investigações parlamentares impulsionadas pela oposição. No entanto, os republicanos, que historicamente exerceram hegemonia sobre o Texas, vivenciam um momento de elevada complexidade e encaram a ameaça concreta de perder o controle do estado. Nesse panorama dinâmico, o eleitorado latino emerge como a variável mais determinante, tornando-se a peça-chave para definir os rumos políticos locais e nacionais.

 

2. Os Três Motores de Mudança no Texas


A importância dos latinos no Texas é indubitável, uma vez que é o segundo estado norte-americano com maior presença desse grupo populacional. No ano de 2000, a porcentagem de latino-americanos na região era de 32% e cresceu exponencialmente nas décadas seguintes, alcançando 39,3% no censo demográfico de 2020. Atualmente existem 11.441.717 hispânicos – ou latinos – no Texas, ou seja, o que corresponde a mais de 18% em relação a todoo país.


Isto posto, é impossível negar a relevância de tal comunidade no que diz respeito à política, em especial, devido ao fato de 36 milhões de latinos terem sido elegíveis para votar em 2024. Os dados da última eleição presidencial demonstram que o Partido Democrata tem sido priorizado em suas decisões, ao passo que agregaram 61% dos votos no candidato Joe Biden.


Ainda nesse contexto, a economia dos Estados Unidos foi considerada fator decisório para o eleitorado latino e, provavelmente, seguirá sendo nas midterms de novembro. A pesquisa eleitoral realizada pelo Pew Research Center em 2024 apontou que 52% dos entrevistados atestavam confiar que Donald Trump faria boas escolhas econômicas e agora os resultados serão postos à prova diante da possibilidade de mudança no Congresso. Demais questionamentos pela pesquisa, como possíveis indicados à Suprema Corte, decisões sobre políticas de imigração, relações exteriores e até mesmo aborto, também foram realizados, demonstrando resultados com poucos pontos percentuais de diferença, o que demonstra uma indeterminação da preferência latina. Por fim, cerca de 44% dos eleitores latinos possuíam uma opinião muito ou majoritariamente favorável ao Partido Democrata, enquanto 32% demonstravam a mesma percepção em relação ao Partido Republicano. A preferência pelos democratas variava conforme características demográficas: entre as mulheres, 50% expressavam uma opinião favorável ao partido, em comparação com 40% dos homens. Além disso, eleitores com 50 anos ou mais apresentavam maior tendência a avaliar positivamente os democratas (48%) do que aqueles mais jovens (42%), evidenciando diferenças geracionais e de gênero no comportamento político desse eleitorado.


No que tange ao custo de vida no estado sulista, a população vem enfrentando altas em insumos básicos no último ano com o aumento de 3,1%. Nota-se ainda que os valores com alimentos, de modo geral, avançaram 2,3%, a energia 15,8% e a gasolina 28,5%. No entanto, é preciso ressaltar que os resultados divulgados são frutos tanto da política interna do país – ao passo que os custos trabalhistas aumentam com a diminuição da mão de obra imigrante, resultada da política migratória de Trump e dos atos extremistas do ICE –  mas também das intervenções internacionais do país, nesse caso, o fechamento do estreito de Ormuz surte grande efeito nos preços.


Outros marcadores, como os custos de habitação, assistência médica e educação, também registraram aumentos na região Sul dos Estados Unidos. Entre agosto de 2025 e agosto de 2026, os preços de habitação subiram 2,6%, enquanto os aluguéis de residência principal tiveram alta de 1,8%. Já a assistência médica apresentou aumento de 1,6%, e o setor de educação e comunicação, de 1,3%. Embora inferiores aos registrados em categorias como energia e transporte, essas variações evidenciam a persistência das pressões sobre o custo de vida, especialmente em despesas essenciais as quais comprometem parcela significativa do orçamento familiar.


Quanto à análise da cidade de Houston, importante centro econômico e industrial do Texas, a situação não se difere circunstancialmente, visto que o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) registrou uma alta anual de 1,3%, segundo o U.S. Bureau of Labor Statistics (BLS). Apesar do índice geral ter apresentado uma elevação moderada, os custos de energia, gasolina e alimentação apresentaram altas superiores ao serem comparados com a situação geográfica do Sul.


Nesse cenário, é de suma importância reiterar a organização política e partidária do estado texano, atualmente na Câmara dos Representantes, pois os republicanos compõem 88 das 150 cadeiras disponíveis, além de também representarem a maioria no Senado Estadual, com 20 representantes. Portanto, como mencionamos anteriormente, os partidos Republicano e Democrata travam uma disputa acirrada na tentativa de alterar a composição dos órgãos governamentais.


Os republicanos, como Ken Paxton e Greg Abbott, defendem principalmente cortes de impostos, redução de regulamentações e estímulos à construção de moradias, além de medidas para ampliar a produção de petróleo e gás e combater práticas abusivas de grandes empresas. Os democratas, por sua vez, priorizam ações de alívio financeiro e maior intervenção regulatória para conter os preços. James Talarico, por exemplo, propõe suspender temporariamente os impostos federais sobre combustíveis, ampliar benefícios fiscais para famílias com filhos e fortalecer a fiscalização sobre empresas do setor alimentício.


Segundo pesquisa da Reuters, a maior parte da população, aproximadamente 78%, culpa o atual governo pelos significativos e progressivos aumentos e tais propostas podem ser decisivas para as midterms e as futuras estratégias e agenda de governo.


Outro aspecto relevante para o debate eleitoral no Texas é a questão energética, visto que o crescimento acelerado nos centros de processamento de dados voltados à Inteligência Artificial demanda demasiada energia elétrica e consumo de recursos hídricos. O estado favorece tais empreendimentos, devido a sua ampla infraestrutura, a expressiva produção de petróleo e gás natural e a geração crescente de eletricidade a partir de fontes renováveis. De acordo com a U.S. Energy Information Administration (EIA), o território foi responsável por 13% da eletricidade produzida nos Estados Unidos em 2024, além de liderar nacionalmente a geração de energia eólica. Essa capacidade energética contribui para tornar o estado atrativo à instalação de grandes infraestruturas digitais, mas também intensifica os debates sobre a disponibilidade de recursos e os limites do crescimento industrial.


A principal pressão ocorre sobre a infraestrutura elétrica, na medida em que os centros de dados são executados ininterruptamente, exigindo grandes volumes de eletricidade tanto para os servidores quanto para os sistemas de refrigeração. Em março de 2026, a U.S. Energy Information Administration (EIA) destacou que a expansão dos centros de dados está entre os fatores que impulsionam o crescimento da demanda elétrica nos Estados Unidos e apontou o sistema administrado pelo Electric Reliability Council of Texas (ERCOT) como uma das regiões com maior expectativa de crescimento da carga elétrica. Por isso, caso a demanda avance mais rapidamente do que a capacidade de geração e transmissão, é possível a ocorrência de pressões sobre os preços da eletricidade e sobre a confiabilidade da rede.


A segunda dimensão refere-se à pressão sobre os recursos hídricos, sobretudo em regiões sujeitas a secas e limitação de água, em virtude da utilização do recurso no resfriamento dos equipamentos e na geração da eletricidade nos centros de dados. Segundo estimativas do Houston Advanced Research Center (HARC), citadas pelo Texas Tribune, os data centers existentes no Texas poderiam consumir cerca de 25 bilhões de galões de água em 2025, equivalentes a 0,4% do consumo estadual, e a estimativa indicava que essa participação poderia alcançar 2,7% até 2030. Ainda que a proporção estadual seja relativamente pequena, a concentração de grandes instalações em municípios específicos pode aumentar a competição por água entre empresas, residências e atividades agrícolas e, consequentemente, seu custo.


No contexto supramencionado, mobilizações dos moradores de diferentes regiões do Texas têm crescido, preocupados com os impactos dessas instalações sobre a qualidade de vida e os recursos locais. Segundo ainda a reportagem do Texas Tribune, cidadãos de San Marcos e algumas outras cidades têm pressionado as autoridades municipais para reavaliar ou barrar projetos devido ao elevado consumo de água e eletricidade, ao risco de aumento das contas de energia e aos impactos da construção sobre o uso do solo.


Concomitantemente, a população desaprova a ideia de que o ruído constante dos equipamentos, o tráfego de obras e a instalação de geradores e outras estruturas industriais possa alterar a dinâmica das áreas residenciais e rurais. Outrossim, os levantes também adquirem relevância eleitoral, devido ao fato de ocasionarem decisões sobre investimentos privados, planejamento urbano e fornecimento de serviços essenciais em temas de debate público. No contexto descrito pela CNN Brasil, a insatisfação com o custo de vida e os efeitos da expansão da inteligência artificial contribui para desafiar o domínio republicano no Texas, abrindo espaço para que os democratas mobilizem eleitores em torno de questões econômicas cotidianas. Enquanto os defensores dos empreendimentos destacam a atração de investimentos, a arrecadação tributária e a criação de empregos, os opositores questionam quem arcará com os custos ambientais e das instalações.


Em suma, a disputa eleitoral no Texas é influenciada pela convergência de três fatores: o peso demográfico e político crescente da população latina, a pressão sobre o poder de compra das famílias e os impactos territoriais da expansão tecnológica. À medida em que o crescimento do eleitorado latino amplia sua relevância na definição dos resultados eleitorais, o aumento do custo de vida coloca à prova a capacidade dos partidos de responder às demandas cotidianas da população. Paralelamente, a instalação de data centers evidencia as contradições entre a atração de investimentos e os custos locais associados ao consumo de energia e água, à infraestrutura e ao uso do solo. Nesse contexto, as eleições de meio de mandato de 2026 representam uma oportunidade para analisar propostas democratas e reavaliar o longo mandato de republicanos no estado.


Diante da confluência entre a reconfiguração demográfica, as pressões inflacionárias e os impactos socioambientais da expansão tecnológica aqui detalhados, torna-se importante analisar o cenário conclusivo do pleito no Texas, ponderando os limites impostos pelas barreiras institucionais vigentes.

 

Considerações finais


A convergência entre a transição demográfica do eleitorado latino, a acentuação do custo de vida e as disputas locais em torno dos recursos hídricos e energéticos gerados pela expansão de data centers intensifica a competitividade política e amplia o espaço de oposição no Texas.


Apesar do cenário favorável à mobilização democrata em torno de pautas socioeconômicas e ambientais, o Texas preserva barreiras estruturais sólidas, a exemplo do mapa eleitoral redesenhado que favorece a maioria republicana. Desse modo, o desfecho das eleições de meio de mandato de 2026 dependerá diretamente da efetividade da oposição em traduzir a insatisfação popular com a inflação e a infraestrutura em votos concretos nas urnas.

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