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MARCO RUBIO, DIÁSPORAS LATINO-AMERICANAS E A POLÍTICA EXTERNA DOS EUA PARA A VENEZUELA

Felipe Sodré Fabri / Giovani Paschoalino de Souza Oliveira / João Marcelo Lopes Silva / Júlia Aguiar Camacho / Maria Eduarda Prestes Duarte | 23/01/2026 23:12 | Análises
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1 POLÍTICA EXTERNA COMO POLÍTICA DOMÉSTICA

O estudo das relações entre os Estados Unidos e a América Latina no século XXI exige, cada vez mais, a superação da dicotomia entre política interna e externa. O conceito de “política interdoméstica” descreve com precisão como as agendas de Washington para o hemisfério Ocidental são moldadas por pressões eleitorais, dinâmicas demográficas e interesses de grupos de pressão específicos dentro do território estadunidense. Nesse cenário, o atual Secretário de Estado, Marco Rubio, destaca-se como peça-chave para compreender essa relação. Rubio não apenas executa a política externa, ele a traduz para uma linguagem que ressoa diretamente em pontos eleitorais estratégicos, transformando questões de segurança regional em ativos de mobilização partidária.


A centralidade da América Latina na agenda de Rubio decorre, em grande medida, da sua capacidade de conectar temas hemisféricos a sensibilidades eleitorais, como a segurança nas fronteiras e o combate a modelos ideológicos antagônicos ao establishment republicano. Para Rubio, a política externa funciona como uma extensão da disputa doméstica, onde a projeção de poder dos EUA na região é utilizada para reafirmar compromissos com bases conservadoras, especialmente o eleitorado hispânico da Flórida. Essa abordagem coloca Rubio em uma posição única como arquiteto de uma diplomacia que prioriza o impacto político interno tanto quanto os objetivos estratégicos tradicionais.


Dessa forma, a Venezuela emerge não apenas como um objeto de análise estratégica, mas como um símbolo político potente. A retórica adotada em relação ao país sul-americano é frequentemente calibrada para atender a uma agenda “pessoal” e partidária, focada em denunciar regimes autoritários como forma de fortalecer sua liderança entre as diásporas que buscam uma postura mais assertiva de Washington. Críticos apontam que essa personalização da diplomacia pode obscurecer soluções multilaterais em favor de ações unilaterais que garantam ganhos políticos imediatos no cenário doméstico.


Assim, a introdução de Rubio no comando da diplomacia norte-americana solidifica a influência da memória política do exílio cubano e venezuelano na formulação de políticas de Estado. O endurecimento das sanções e a narrativa de confronto são indissociáveis da base de apoio que o político cultivou ao longo de sua carreira no Senado. Portanto, entender Rubio é entender como a Flórida se tornou o laboratório de uma política externa que busca a “reconquista” ideológica do continente como ferramenta de reafirmação do poder conservadornos Estados Unidos.

 

2 MARCO RUBIO E A POLÍTICA DA DIÁSPORA: FLÓRIDA COMO LABORATÓRIO

Na contemporaneidade, a América Latina tem ganhado particular atenção dos dirigentes da Casa Branca e Marco Rubio acaba surgindo como o líder do Departamento de Estado que busca traçar os planos dessa nova política externa. Todavia, essa figura já se destacava com posicionamentos críticos envolvendo a geopolítica da América Latina, algo notável em sua carreira política antes de ser nomeado para o cargo de secretário, contexto importante para se compreender o atual contexto envolvendo os EUA e o continente latino-americano.


Filho de imigrantes cubanos anticomunistas, Rubio sempre se mostrou um opositor ao regime de Cuba e dos seus aliados regionais, como os chavistas na Venezuela. Após se formar em Direito em 1996, passa a ser, em 1998, membro da “Comissão da cidade de West Miami” e, a partir desse momento, passa a ascender em cargos públicos rapidamente, sendo eleito para a Casa dos Representantes da Flórida em 2000 e, posteriormente, se tornando seu Orador em 2006.  Em 2010 é eleito como Senador pela Flórida com quase 49% dos votos, catapultando sua visão e agenda conservadora para o debate nacional.


Nesse espaço, Rubio se mostrava uma figura conversadora para a política externa e por participar de debates importantes envolvendo reformas tributárias, mudanças nas regras de imigração e questões relacionadas à defesa. Além disso, o então senador utilizava de seu conhecimento da língua espanhola para se aproximar do eleitorado hispânico, sendo o primeiro político a fazer uma resposta ao famoso discurso de “State of the Union”, feito por Barack Obama em 2013, tanto em inglês como em espanhol. Tal visibilidade garantiu atenção dos republicanos, além de ser visto como um indivíduo que poderia guiar um movimento conservador nos próximos anos na Casa Branca.


Rubio, em 2016, decide disputar a nomeação do partido para a disputa presidencial, mas acaba perdendo para Donald Trump. Inicialmente crítico do empresário, Rubio, assim como outras figuras proeminentes entre os republicanos, decide apoiar Trump. Desde então, sendo reeleito em 2016 e 2022, Marco Rúbio passou a se mostrar cada vez mais incisivo sobre seus posicionamentos envolvendo a América Latina, se alinhando ao movimento Trumpista. Ou seja, a construção de sua carreira como senador se deu, sobretudo, por um forte apoio popular de eleitores que apoiaram esses posicionamentos. Por exemplo, nas eleições de 2010, 2016 e 2022, as margens de votos de Rúbio foram aumentando gradativamente, de 48,9% em seu primeiro pleitopara 57,7%. Além disso, suas constantes críticas a Cuba e, mais recentemente, contra a Venezuela, sinalizam essa popularidade justificada, por exemplo, pela alta quantidade de pessoas desses países que residem no estado da Flórida, muitos com perfil conservador e que resgatam ideias como o anticomunismo para tornar Marco Rúbio o guia de seus posicionamentos. Segundo Miguel Cossio, operador chefe do “Museu Americano da Diáspora Cubana para Miami”, a nova política externa dos EUA “reflete as perspectivas de boa parte da comunidade cubana-americana, de acabar com o regime na Venezuela e em Cuba”. Além disso, como visualiza Lorena Cabrera, residente de Miami, ele seria “nossa cara”, se referindo ao Secretário de Estado como representante de seus posicionamentos envolvendo a América Latina.


Portanto, mesmo após décadas da Revolução Cubana, esses ecos ainda persistem dentro dos Estados Unidos. Não é apenas o bloqueio de Cuba que se manteve, mas a memória daqueles que fugiram da ilha construiu a carreira de um ex-senador, agora secretário de estado, que representa essa visão conservadora e até reacionária contra os regimes alinhados à esquerda da América Latina.

 

3 DA POLÍTICA DOMÉSTICA À POLÍTICA EXTERNA: COMO RUBIO ENQUADRA A AMÉRICA LATINA

A história familiar e política de Marco Rubio ajudou a moldar ideologicamente sua maneira de enxergar os regimes na América Latina. Para uma melhor relação dos Estados Unidos com o continente, Rubio afirma o que seria o melhor eixo de tratativas: o diálogo com nossos vizinhos é um elemento vital para lidar com a migração, as cadeias de suprimentos e o crescimento econômico. A primeira viagem internacional de Rubio como secretário de estado o levou ao Panamá, El Salvador, Costa Rica, Guatemala e República Dominicana. Por outro lado, o secretário utiliza diferentes espaços de entrevista para criticar alguns governos latino-americano, tais como Cuba, Venezuela e Nicarágua, atribuindo frequentemente termos como “autocracias” que violam os direitos humanos e geram instabilidade regional. Esses países são enquadrados como inimigos da democracia e responsáveis por crises migratórias.


Marco Rubio se utiliza da tática de vincular este cenário político com a narrativa simplificadora de “democracia vs. autoritarismo” a fim de organizar uma política externa estadunidense para a América Latina, visto que esse contexto trabalharia os Estados Unidos como salvadores da democracia, de acordo com a sua visão. Assim, desde o retorno dos republicanos à Casa Branca, a política externa para os governos latino-americanos está sendo pressionada pela preocupação em três eixos centrais: imigração, comércio e contenção da influência chinesa. A partir desse foco em relação ao território latino-americano, essa visão é operacionalizada em posição compartilhada por Rubio e pelo enviado especial para a América Latina, Maurício Claver-Carone. A operação ocorre por meio de políticas que defendem sanções mais rigorosas e estratégias de “pressão máxima” contra governos de esquerda em Cuba, Nicarágua e Venezuela. Além disso, a contenção da influência econômica e diplomática da China aparece como elemento central dessa política, sendo tratada como um desafio estratégico para os Estados Unidos na região.


De forma mais específica, a preocupação de Marco Rubio se concentra no âmbito econômico. O político comenta sobre seu objetivo de trocar os investimentos chineses pelos estadunidenses: “[...] felizmente, os Estados Unidos têm fortes relações com vários países importantes da região, e acho que temos a oportunidade de aproveitar isso de maneira que possam atrair o tipo de investimento que eles preferem ao investimento chinês, mas, no momento, isso não está disponível. Não há alternativa americana ao que os chineses estão oferecendo. Espero que possamos abrir caminho para isso(tradução livre). Para além da preocupação chinesa, a retórica acerca dos regimes autoritários e da ameaça à democracia, são alguns dos importantes pilares da construção da política externa de Rubio. Nesse sentido, a Venezuela se configura como o exemplo clássico de regime autocrático, intitulado como “narco-regime”, sendo o símbolo do modelo anti-estadunidense. Portanto, esse contexto reforça políticas externas duras, sanções, e a recente intervenção direta no território.


Em contrapartida, o discurso de dualidade sobre as questões externas também funciona como ferramenta política doméstica, alcançando diversos cidadãos, incluindo o apoio das comunidades de diáspora latino-americanas que possuem opiniões mais conservadoras, visto que os regimes criticados são vistos como ameaça aos valores ocidentais. Assim, Rubio consegue se aproximar de diversos setores conservadores e com eleitores que valorizam a política externa mais intervencionista. Esse alinhamento também molda debates dentro do próprio sistema político americano, tornando o discurso doméstico exportado para a arena internacional como justificativa das intervenções, unindo objetivos internos e externos da política norte-americana.

 

4 VENEZUELA COMO EIXO SIMBÓLICO E ESTRATÉGICO

O discurso ideológico do secretário de Estado em prol das intervenções externas do país,é baseado na superioridade dos Estados Unidos e no uso de uma releitura da antiga doutrina Monroe. Isso se dá tanto pela autodenominação de Donald Trump como “corolário Trump”, quanto pela falsa justificativa de intervenção estatal para preservar a soberania de países como a Venezuela, no entanto, tais afirmativas têm como objetivo reiterar os Estados Unidos como a hegemonia das Américas. Nesse sentido, notam-se controvérsias nas falas de Rubio, ao alegar que os EUA não necessitam do petróleo venezuelano durante uma entrevista, ao mesmo tempo que projetos para uma possível ampliação das refinarias na Costa do Golfo vêm sendo discutidos, segundo e-mails de Patrick De Hann, um dos chefes de análise da GasBuddy. Os Estados Unidos ainda dependem de um fluxo de importações para suprir seu estoque de petróleo bruto e nutrir sua indústria, e a intervenção estatal na Venezuela tem sido caracterizada por muitos agentes externos como uma tentativa de reivindicar os recursos venezuelanos, para que as petrolíferas estadunidenses possam refinar o substrato em sua forma bruta, visto que a infraestrutura nacional estava enfraquecida pela falta de investimento e, consequentemente, produzindo menos que o esperado. Pedro Sánchez argumentou que a política liderada por personagens como Rubio não visa a democracia, mas sim a “apropriação indébita” dos recursos naturais da Venezuela, estabelecendo um “precedente perigoso” onde sanções econômicas são usadas como ferramenta de mudança de regime para fins comerciais.


Nessa perspectiva, a luta contra o autoritarismo chavista chama a atenção dos latinos advindos da diáspora e que formam a sua base eleitoral na Flórida. Dessa forma, o uso de rigorosas sanções, somadas ao isolamento diplomático e à pressão internacional, são ações que agregam seu discurso e ampliam seu pleito eleitoral. Marco Rubio também reiterou que parte do interesse no petróleo faz jus aos interesses estratégicos dos EUA para que seus “adversários” não usufruam da commodity, como abordado anteriormente. Isso se dá pelo fato da China, além de principal concorrente dos EUA na disputa pela maior economia global, ser também um dos principais parceiros comerciais venezuelanos no que tange a compra de petróleo.


Desse modo, além de assegurar a segurança nacional, os EUA também se colocariam em posição estratégica e de destaque no setor energético, impondo influência na distribuição dos barris produzidos no país recém invadido. Isto posto, ao atacar o regime de Maduro, Rubio está simultaneamente protegendo os interesses de segurança dos EUA, “combatendo” o narcotráfico e comunicando o eleitorado conservador hispânico de que ele atua diretamente na contenção do socialismo, ao passo que os venezuelanos que deixaram o país por causa da ditadura têm apoiado a intervenção norte-americana, como uma salvação para a período pelo qual passaram. Por fim, a política de Rubio também contribui para o agravamento da crise humanitária, por meio de conflitos entre facções, políticas instáveis e aumento da criminalidade, o que, por sua vez, aumenta o fluxo migratório que o próprio secretário critica em sua agenda de segurança interna, uma vez que o país não estava preparado para uma brusca transição de poder.


Em suma, a estratégia norte-americana para a Venezuela revela uma complexa intersecção entre a busca pela hegemonia regional e interesses econômicos estratégicos. Ao reinterpretar a Doutrina Monroe, o discurso de Washington utiliza a defesa da soberania e o combate ao socialismo como justificativas para assegurar o controle sobre os recursos energéticos venezuelanos e neutralizar a influência de adversários globais, como a China.


O sequestro surpresa do Chefe de Estado venezuelano, Nicolás Maduro, realizado pelos Estados Unidos em Caracas, capital do país, desencadeou de imediato reações variadas e dispersas entre os líderes e governos internacionais. Entre os países latino-americanos, a maioria expressou preocupação e condenou a situação. Brasil, Chile, Colômbia, México e Uruguai com governos associados à ala progressista da América Latina, repudiaram a agressão e a interferência estrangeira deste ataque contra a Venezuela. Em comum, as declarações dos países enfatizaram que os Estados Unidos desrespeitaram o Direito Internacional, e reiteraram o direito à autodeterminação e soberania do povo e do Estado venezuelano, respectivamente, ambos garantidos pela Carta das Nações Unidas, onde conflitos internos na Venezuela devem ser solucionados de forma unilateral e pacífica pelo próprio povo venezuelano. Além do mais, episódios como esse abrem precedentes para a desestabilização da comunidade internacional. Os países ainda fizeram apelo para uma solução diplomática por meio do diálogo multilateral, além de invocarem a mediação de órgãos internacionais competentes para mediar a situação, como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Organização das Nações Unidas


Alguns desses países como Brasil, Chile, Colômbia e Uruguai, participaram de uma reunião de alto nível em julho de 2025 na cidade de Santiago, capital do Chile. Esse evento reuniu chefes de governo para a discussão de temáticas centradas em: defesa da democracia e do multilateralismo, combate às desigualdades, novas tecnologias digitais, e o enfrentamento à desinformação. A cúpula ocorreu em um momento particularmente delicado, marcado pelo aumento das tensões na América Latina como a imposição de tarifas pelos Estados Unidos a países latino-americanos, além da intensificação de atividades militares do país no Caribe. Por outro lado, a ofensiva realizada pelo governo Trump recebeu apoio de governos associados à ala conservadora. Países como Argentina, Equador, Paraguai, e o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast destacaram o ataque como fundamental para o restabelecimento da liberdade e democracia na Venezuela. Os governos da Argentina e Equador ainda declararam que a intervenção estrangeira foi um grande passo contra o crime organizado e o narcoterrorismo.  Entre alguns países europeus, as reações ao ataque mostraram-se contidas, ainda que se mantivessem em tom crítico. Membros da União Europeia (UE), com exceção da Hungria, realizaram uma declaração conjunta sobre o ataque norte-americano. O bloco reiterou que os princípios do Direito Internacional e a Carta das Nações Unidas devem ser respeitados, e pediu aos membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas responsabilidade para a defesa desses valores. A UE ainda afirmou que o governo de Nicolás Maduro não possui legitimidade como democraticamente eleito, e defendeu uma transição pacífica e democrática respeitando os direitos à autodeterminação e soberania do povo venezuelano. O Reino Unido seguiu um posicionamento semelhante ao da UE, afirmando que o Direito Internacional deve ser respeitado. O governo do país ainda afirmou que pretende abrir diálogo bilateral com os EUA, enfatizando a necessidade de apurar os fatosocorridos.


Em seu discurso após o ataque em Caracas, Trump invocou o que chamou de “Doutrina Donroe”, apresentada como uma visão de domínio hemisférico dos EUA como parte da agenda estratégica de segurança nacional. Essa conjuntura representa uma reorientação prática daquilo que se conhece como “Doutrina Monroe”, agora reformulada em uma doutrina que busca legitimar a agressão à soberania de um país, e viabilizar uma apropriação coercitiva de recursos naturais em articulação entre aparato estatal norte-americano e suas corporações. Essa reatualização da Doutrina Monroe torna-se explícita quando o uso extensivo de sanções econômicas é substituído pela intervenção direta como política de Estado. Desta forma, segurança nacional e economia doméstica unem-se em pautas da política externa norte-americana, onde a cooperação regional no cenário latino-americano é instrumentalizada por intervenções diretas com objetivos de alinhamento bilateral com Washington e assegurar a quebra de relações com países rivais dos EUA, como forma de garantir a cooptação de produtos venezuelanos como o petróleo. Por outro lado, a reformulação da doutrina dos EUA tem ampliado a preocupação de governos europeus com a própria integridade e legitimidade, uma vez que países do continente vêm enfrentando pressões crescentes diante da postura mais agressiva do governo Trump. As ameaças norte-americanas da tomada da ilha da Groenlândia da Dinamarca colocam os europeus em xeque, onde acomodar-se diante da tomada da ilha por Washington preservaria a harmonia transatlântica, mas sinalizaria que a coerção e a pressão funcionam na Europa. Em contrapartida, a resistência europeia contra as ambições norte-americanas pode sugerir um atrito diplomático, ou até mesmo bélico, dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o que resultaria na possível retirada de membros, ou na dissolução da organização.


A atual conjuntura que envolve os EUA, a América Latina e a Europa pode ser interpretada como o que Samuel Huntington formulou como o “choque de civilizações”, no livro de mesmo nome, publicado em 1996. Neste sentido, as previsões de Huntington foram concretizadas no que o autor se refere a necessidade norte-americana de manter a América Latina sob sua influência no pós-Guerra Fria. O inesperado, porém, é a possibilidade de um choque de civilizações emergir dentro da própria civilização ocidental, e não do embate de civilizações distintas.

 

5 INFLUÊNCIA REAL OU AMPLIFICAÇÃO POLÍTICA?

Ao avaliar a atuação de Marco Rubio como Secretário de Estado, surge a questão fundamental: ele é o arquiteto original de uma nova estratégia hemisférica ou apenas um amplificador eficiente de tendências já presentes na atual administração? Sugerimos que Rubio atua como um catalisador institucional que utiliza seu conhecimento profundo das dinâmicas regionais para dar forma e substância à retórica de “pressão máxima” da Casa Branca. Contudo, sua influência enfrenta limites estruturais decorrentes da própria natureza da política externa dos EUA, que muitas vezes prioriza interesses econômicos e de segurança imediatos em detrimento de visões ideológicas de longo prazo. A diáspora latino-americana, embora central na construção da imagem pública de Rubio, funciona como uma força política relevante, mas não necessariamente determinante em todas as dimensões da política externa. O caso venezuelano ilustra que, enquanto a pressão dos exilados oferece a legitimidade política necessária para ações assertivas, a execução real dessas políticas depende de equilíbrios complexos que envolvem o mercado de energia, a contenção da China e a gestão dos fluxos migratórios. Rubio, portanto, equilibra o papel de porta-voz das comunidades latinas conservadoras com a necessidade de entregar resultados tangíveis para a agenda nacional “America First”.


As implicações para o futuro da região sob esta liderança apontam para uma diplomacia mais fragmentada e pautada pelo bilateralismo seletivo. A tendência é que os EUA continuem a recompensar aliados ideológicos e a punir adversários através de sanções econômicas, o que pode exacerbar a polarização regional e dificultar a cooperação em temas multilaterais como o clima e a integração produtiva. A estratégia de Rubio sinaliza uma preferência por resultados que possam ser “vendidos” ao eleitorado doméstico como vitórias da liberdade, mesmo que o custo seja uma maior instabilidade diplomática nas capitais latino-americanas.


Conclui-se, então, que o legado de Marco Rubio na política externa será medido pela sua capacidade de institucionalizar a influência das comunidades hispânicas conservadoras na estrutura de poder de Washington. Se sua abordagem for o suficiente para promover transições políticas na região, ele se consolidará como o estrategista que realinhou o hemisfério. Caso contrário, sua gestão poderá ser vista como um período de alta voltagem retórica com poucos ganhos estruturais, reforçando a percepção de que, para os Estados Unidos, a América Latina continua sendo, primordialmente, um palco para suas próprias disputas internas de poder.

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