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O CHOQUE DA MIGRAÇÃO NEGATIVA NOS ESTADOS UNIDOS (2025-2026)

Thaís Caroline A. Lacerda | 31/01/2026 15:27 | Análises
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1 O FIM DA “BONANÇA” MIGRATÓRIA

No início de 2026, os Estados Unidos atingiram um divisor de águas demográfico com possíveis implicações para sua hegemonia econômica: pela primeira vez em mais de meio século, a migração líquida para o país pode ter se tornado negativa. Segundo dados reportados pelo WashingtonPost e análise preliminar da Instituição Brookings, o fluxo migratório, que historicamente atuou como o motor de expansão da força de trabalho norte-americana, sofreu uma reversão abrupta sob a administração Trump, resultando em uma perda líquida estimada de centenas de milhares de indivíduos em apenas um ano. Segundo o Washington Post, esse fenômeno não é acidental, mas sim o resultado direto de uma execução rigorosa de promessas de campanha, que incluem deportações em massa, a ampliação de restrições de vistos e uma fiscalização fronteiriça sem precedentes. Os pesquisadores da Brookings, por sua vez, reforçam que a desaceleração dos fluxos migratórios aos Estados Unidos em 2025 é resultado principalmente por meio dos programas humanitários, da liberdade condicional para refugiados e pela via da fronteira sudoeste, apesar de as deportações e outras saídas recebam mais atenção da mídia. Sugerem ainda que a imigração líquida (Net immigration) provavelmente variou entre -295.000 e -10.000 em 2025 e, para 2026, a projeção aponta que provavelmente variará entre -925.000 e +185.000.



 Nesse sentido, o governo Trump teria obtido até agora grande êxito em sua meta de reduzir drasticamente a presença estrangeira, já que cerca de um quinto dos imigrantes que anteriormente teriam acesso legal ao país agora enfrentam barreiras intransponíveis. Entretanto, o cerne da discussão proposta reside nas possíveis consequências econômicas dessa retração. A saída massiva de imigrantes, aliada ao bloqueio de novos fluxos, pode gerar um vácuo crítico no mercado de trabalho. Setores dependentes de mão de obra intensiva, como a construção civil, agricultura, setor de serviços e o cuidado com idosos, podem enfrentar uma escassez que ameaça estagnar a produtividade e elevar os custos operacionais em escala nacional. Além disso, a análise da Brookings projeta um futuro de incerteza macroeconômica, ressaltando o choque entre a ideologia de controle soberano e a realidade demográfica. Com o envelhecimento acelerado da população nativa, o estudo sugere que a ausência de trabalhadores estrangeiros para repor a força de trabalho e sustentar o consumo interno, pode levar a um crescimento reduzido do PIB e a pressões inflacionárias persistentes.

 

2 IMPACTO MACROECONÔMICO: O “TETO” DO CRESCIMENTO

O forte crescimento do emprego observado entre 2022 e 2024 deveu-se, em grande parte, ao fluxo migratório, que equilibrou a disponibilidade de trabalhadores com a nova demanda por bens e serviços. No entanto, segundo o mencionado relatório Brookings, o ritmo populacional atual reduziu o chamado “crescimento de equilíbrio do emprego”. Estimativas indicam que o nível necessário para estabilizar o desemprego caiu de uma faixa entre 20.000 e 50.000 vagas mensais (no fim de 2025) para um possível cenário de retração em 2026. Esse movimento também deve frear a economia, subtraindo de US$ 60 bilhões a US$ 110 bilhões do consumo total nos próximos dois anos.


Logo, enquanto o período de 2021-2024 foi marcado por um crescimento robusto do PIB impulsionado pela oferta de mão de obra estrangeira, a pergunta se direciona sobre como o cenário econômico dos Estados Unidos de 2026 se projeta a partir da experiência da imigração líquida negativa em 2025.


Nesses termos, buscamos avaliar como a transição para uma imigração líquida negativa impõe um teto artificial ao crescimento dos Estados Unidos, desafiando a sustentabilidade de setores vitais e forçando uma reavaliação das projeções de longo prazo do Congressional Budget Office (CBO) sobre a solvência e a vitalidade da economia americana. O relatório divulgado no início de 2024 intitulado “The Demographic Outlook: 2024 to 2054”, publicado pelo CBO, ofereceu uma projeção técnica sobre a evolução populacional dos Estados Unidos e suas implicações econômicas para as próximas três décadas. O documento fundamentou-se na premissa de que a demografia norte-americana atravessava uma mudança estrutural, onde o crescimento populacional passaria a depender integralmente da imigração líquida a partir de 2040. Esse fenômeno decorreu da projeção de que as mortes excederiam os nascimentos em função do envelhecimento populacional e da queda na taxa de fertilidade, que o órgão revisou para 1,70 nascimentos por mulher, valor significativamente abaixo da taxa de substituição populacional. No que tange aos indicadores econômicos, o CBO apresentou dados que correlacionavam o aumento do fluxo migratório observado entre 2021 e 2026 com uma expansão da força de trabalho. Por meio desses dados, estimou-se que a possível base adicional de trabalhadores contribuiria com um aumento de aproximadamente 5,2 milhões de pessoas na população economicamente ativa até 2033, o que deveria impulsionar o Produto Interno Bruto (PIB) real em cerca de 0,2 pontos percentuais anualmente na próxima década. Do ponto de vista fiscal, o relatório projetou que essa dinâmica resultaria em um incremento de 1,2 trilhão de dólares nas receitas federais até 2034, embora também tenha previsto um aumento de 300 bilhões de dólares em despesas relacionadas a juros da dívida e gastos obrigatórios.


Entretanto, o relatório não omitiu os desafios inerentes a essa transição demográfica. A rápida expansão da parcela da população com 65 anos ou mais, comparada ao crescimento mais lento da população em idade ativa, é apontada como uma pressão persistente sobre o financiamento da Seguridade Social e do Medicare. Além disso, no documento observou-se que, no curto prazo, a integração de novos trabalhadores poderia exercer uma pressão moderada para baixa na produtividade média e nos salários em setores específicos. No entanto, o destaque do estudo foi caracterizar a imigração como o elemento compensatório central frente ao declínio demográfico nativo, sendo determinante para a trajetória do PIB e para a sustentabilidade fiscal dos Estados Unidos no horizonte de 2054.


Um artigo de destaque do Goldman Sachs, publicado em fevereiro do ano passado, avaliou como a aceleração da redução dos fluxos migratórios estaria redefinindo a dinâmica econômica dos Estados Unidos após o expressivo aumento observado entre 2022 e 2024. Segundo a publicação, o período de imigração elevada impulsionou o crescimento do emprego por meio de uma via de mão dupla, na qual os imigrantes forneceram a força de trabalho necessária e, simultaneamente, geraram demanda por bens e serviços.


A integração das informações dos relatórios da Brookings, Goldman Sachs e CBO com os dados atuais do Bureau of Labor Statistics(BLS), revela a economia norte-americana em um possível momento de inflexão estrutural em 2026. O forte crescimento observado entre 2022 e 2024, que se fundamentou na expansão da força de trabalho via fluxos migratórios, deu lugar a um cenário onde a imigração líquida negativa pode impor um teto ao desenvolvimento.


Conforme os dados oficiais mais recentes do BLS, o mercado de trabalho demonstra uma transição para um ritmo de crescimento mais contido, sem, contudo, validar a tese de que o equilíbrio da economia exige agora a retração das vagas. Para que a taxa de desemprego permaneça estável e consiga absorver satisfatoriamente os novos entrantes, o mercado ainda demanda a criação de aproximadamente 70.000 a 100.000 novos postos de trabalho mensalmente. Embora os números do Payroll (folha de pagamento não agrícola) tenham apresentado moderação, eles permanecem em patamares que sustentam a expansão econômica, distanciando-se de cenários de contração que inevitavelmente pressionariam o desemprego para cima a longo prazo.


Essa resiliência é acompanhada por uma oferta de mão de obra que não estagnou, conforme evidenciado pela taxa de participação na força de trabalho, que tem se mantido estável em torno de 62,7%. Esse percentual reflete uma base de trabalhadores que continua buscando ou ocupando postos de trabalho de maneira consistente, desafiando a percepção de que a população economicamente ativa parou de crescer. Portanto, a dinâmica atual do BLS aponta para um reajuste de expectativas e uma desaceleração controlada, onde o equilíbrio entre a oferta de trabalhadores e a criação de vagas ainda pressupõe um crescimento líquido positivo e contínuo para manter a saúde do cenário ocupacional.


A transição demográfica descrita pelo CBO, marcada por uma taxa de fertilidade de 1,70, foi subitamente acelerada por uma reversão no fluxo migratório, que se tornou negativo em 2025 pela primeira vez em décadas. Conforme aponta a atualização de janeiro de 2026 da Brookings, essa imigração líquida negativa reduziu o crescimento de equilíbrio da economia: o patamar necessário para estabilizar o desemprego, que historicamente superava 100 mil vagas, caiu para uma faixa entre 20.000 e 50.000 postos mensais, com tendência de se tornar negativo em 2026. Os relatórios do BLS confirmam essa pressão, mostrando um Payroll enfraquecido que, no entanto, não eleva o desemprego de forma proporcional, já que a base de trabalhadores disponíveis está em retração real. Na prática, a saída líquida de estrangeiros enfraqueceu o consumo total e gerou pressões inflacionárias em setores dependentes de mão de obra, desafiando a vitalidade econômica de longo prazo e invalidando as projeções mais otimistas de crescimento populacional anteriormente previstas.


Portanto, no cenário de 2026 parece válida a tese de que a imigração atuou como o elemento compensatório central para o PIB. Com a inversão desse fluxo, as projeções técnicas de expansão de 0,2 pontos percentuais anuais no PIB real e o incremento de US$ 1,2 trilhão em receitas federais enfrentam obstáculos importantes. O que se observa nos dados correntes do BLS é uma economia que, ao perder seu motor demográfico externo, precisa lidar com a realidade de uma força de trabalho nativa em declínio, forçando uma reavaliação das métricas de produtividade e solvência da Seguridade Social e do Medicare diante de um horizonte de crescimento visivelmente mais contido.


Nesse contexto, a política de imigração tornou-se um ponto central de especulação sobre a resiliência do mercado de trabalho, a dinâmica econômica e as pressões em preços e salários, influenciando diretamente as decisões de política monetária.


As estimativas do estudo da Brookings sugerem que a expansão do emprego deverá permanecer fraca em comparação aos padrões históricos, podendo entrar em terreno negativo ao longo de 2026. Consequentemente, a taxa de desemprego passa a ser o indicador mais preciso para discernir se a fragilidade laboral decorre de flutuações cíclicas, passíveis de intervenção monetária, ou se é apenas o resultado de uma política imigratória mais restritiva. Ademais, setores específicos da economia que atendem diretamente a população imigrante afetada registrarão uma atividade econômica inesperadamente débil. Os pesquisadores advertem que é fundamental compreender que essa retração não reflete condições adversas de um ciclo econômico tradicional, mas representa a “nova normalidade” estabelecida sob as atuais diretrizes migratórias. Por fim, à medida que a economia se ajusta a essa nova realidade de oferta de mão de obra e demanda de consumo, recomenda-se que qualquer adoção de política monetária mais expansionista seja conduzida com cautela, dado o caráter estrutural e não meramente conjuntural dessa mudança.

 

3 SETORES CRÍTICOS E VULNERABILIDADES REGIONAIS

O setor econômico dos Estados Unidos em 2026 enfrenta desafios estruturais profundos em seus pilares produtivos, conforme a transição para uma imigração líquida negativa e as políticas de restrição migratória alteram a composição do mercado de trabalho. Segundo os dados do American Immigration Council, a escassez da força de trabalho resultante desse cenário gera um impacto sistêmico que transcende a simples falta de pessoal, manifestando-se como uma perda significativa de poder de compra e um aumento nos custos operacionais que fragiliza setores vitais. Na agricultura, os dados do USDA (Departamento de Agricultura) indicam uma crise de custos acentuada, onde a dificuldade em encontrar trabalhadores rurais para as colheitas e o manejo pecuário eleva o preço final dos alimentos, pressionando a inflação e reduzindo a competitividade do agronegócio americano no mercado global.


Esse fenômeno de escassez reflete-se com igual intensidade no setor da construção civil, onde a ausência de novos entrantes no mercado de trabalho impõe um teto ao ritmo de novas obras e infraestrutura. A redução da oferta de trabalhadores especializados e braçais resulta em atrasos crônicos e no encarecimento de projetos residenciais e comerciais, o que acaba por frear o investimento em capital fixo e impactar diretamente o crescimento do PIB. Conforme destacado nas projeções de 2024 e 2025, a perda da “via de mão dupla”, na qual o imigrante era simultaneamente força produtiva e consumidor, cria um vácuo de demanda e oferta que afeta a vitalidade das regiões dependentes desses ciclos econômicos.


No setor da saúde, a vulnerabilidade é ainda mais acentuada devido ao envelhecimento populacional acelerado e à baixa taxa de fertilidade mencionada pelo CBO. Com a população de 65 anos ou mais crescendo de forma desproporcional à população em idade ativa, a rede de cuidados médicos e de assistência social enfrenta uma pressão insustentável. A falta de profissionais de suporte, historicamente suprida pela força de trabalho estrangeira, compromete a prestação de serviços essenciais e eleva os custos de serviços de saúde e da seguridade social, conforme mencionamos anteriormente. Em última análise, a avaliação integrada desses setores demonstra que a retração migratória funciona como uma barreira ao desenvolvimento, forçando uma readequação forçada dos modelos de negócio e desafiando a sustentabilidade fiscal do país nas próximas décadas.


A análise dos dados publicados pelo BLS em janeiro de 2026 corrobora o impacto direto da escassez de mão de obra sobre o Índice de Preços ao Consumidor (CPI), refletindo as vulnerabilidades setoriais apontadas anteriormente. Conforme o relatório mais recente, a inflação de serviços e alimentos continua a ser pressionada pelos custos de insumos e, principalmente, pela folha de pagamento. Na agricultura, a crise de custos detalhada pelo USDA no Farm Labor Statistics demonstra que a menor disponibilidade de trabalhadores rurais elevou o custo de produção, o que se traduz em preços mais altos nas prateleiras para o consumidor final, dificultando o controle das metas inflacionárias.


No setor de habitação e construção, os índices do BLS mostram que o custo de moradia (shelter) permanece como um dos principais componentes da inflação persistente. Esse fenômeno está intrinsecamente ligado à tese do American Immigration Council, que alerta para o fato de que a redução drástica na força de trabalho da construção civil impede a expansão da oferta imobiliária, mantendo os preços artificialmente elevados devido ao déficit habitacional. Simultaneamente, o setor de saúde apresenta uma elevação nos custos de cuidados médicos, onde a escassez de profissionais de apoio e enfermagem força um aumento salarial que é repassado aos planos de saúde e serviços hospitalares, validando as preocupações do CBO sobre a pressão fiscal de longo prazo.


Dessa forma, a integração dos indicadores do BLS com as fontes de pesquisa econômica confirma que a retração migratória em 2026 não apenas reduziu o crescimento do PIB, mas alterou a dinâmica do CPI ao criar gargalos de oferta em setores essenciais. O aumento nos custos de produção na agricultura e na construção, somado à pressão sobre os serviços de saúde, pode gerar um ciclo de inflação de custos que incide sobre o poder de compra das famílias norte-americanas, conforme previsto nos estudos sobre a perda da via de mão dupla da imigração. A sustentabilidade econômica, portanto, encontra-se sob o desafio de equilibrar uma força de trabalho envelhecida e reduzida com uma demanda que, embora mais contida, enfrenta preços crescentes por serviços básicos e bens essenciais.

 

4 O NOVO EQUILÍBRIO?

A conjuntura econômica dos Estados Unidos no início de 2026 revela que o país atravessa um momento de inflexão estrutural, onde a transição para uma imigração líquida negativa redefine os limites do crescimento nacional. A reversão do fluxo migratório, que anteriormente sustentava a expansão da força de trabalho e o dinamismo do consumo, impôs um “teto” artificial ao desenvolvimento, reduzindo o patamar de crescimento de equilíbrio do emprego para uma faixa entre 20.000 e 50.000 vagas mensais, com tendências de retração. Essa mudança não representa apenas uma oscilação conjuntural, mas estabelece uma “nova normalidade” que desafia as projeções de longo prazo do CBO sobre a solvência fiscal e a vitalidade do Produto Interno Bruto (PIB).


A escassez de mão de obra resultante dessas políticas migratórias restritivas gerou gargalos de oferta em pilares produtivos essenciais, como a agricultura, a construção civil e o setor de saúde. O impacto manifesta-se em um ciclo de inflação de custos, onde a dificuldade em preencher postos de trabalho eleva os custos operacionais e os preços finais de alimentos, moradia e cuidados médicos, comprometendo o poder de compra das famílias norte-americanas. Ao perder o motor demográfico externo que equilibrava a economia, o país enfrenta agora o desafio de sustentar sua infraestrutura e serviços básicos com uma força de trabalho nativa em declínio e envelhecida.


A experiência de 2025 e 2026, analisada pelo relatório da Brookings, parece confirmar que a imigração atuava como o elemento compensatório central para a estabilidade macroeconômica e a sustentabilidade da Seguridade Social e do Medicare. Diante da perda da “via de mão dupla”, na qual o imigrante impulsionava simultaneamente a oferta e a demanda, a economia americana é forçada a uma readequação de seus modelos de negócio e de sua política monetária. O novo equilíbrio econômico exige, portanto, uma gestão cautelosa que reconheça o caráter estrutural dessa retração de mão de obra para evitar que o enfraquecimento da produtividade se torne um entrave permanente à hegemonia e à saúde fiscal do país.


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