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O controle migratório nos Estados Unidos, desde a segunda gestão de Trump, passou a operar sob uma nova lógica: a transição da patrulha física para a vigilância algorítmica. Através de ferramentas como o aplicativo Mobile Fortify, o U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE) institucionalizou o perfilamento biométrico em tempo real. Portanto, como em documentos recentes do Departamento de Segurança Interna (DHS), a inovação tecnológica não é apenas uma melhoria operacional, mas um instrumento de quebra de direitos civis básicos, com impacto desproporcional sobre a população latina.
O ponto central da discussão reside na natureza mandatória do escaneamento facial. Conforme reportado, as diretrizes do ICE estabelecem que indivíduos sob custódia ou abordagem não possuem o direito de recusa à captura biométrica. Essa imposição transforma o smartphone do agente em uma ferramenta forense de campo, capaz de cruzar imagens instantaneamente com vastos bancos de dados federais. Removendo a possibilidade de consentimento, o Estado converte a face do imigrante em uma evidência permanente e inquestionável, eliminando qualquer esfera de privacidade no espaço público e consolidando o que foi caracterizado como “captura total”.
Essa infraestrutura de monitoramento é alimentada pela integração com sistemas analíticos de larga escala, como o software Elite, da Palantir Technologies. Enquanto o Mobile Fortify atua na captura individual, o Elite processa dados de utilidade pública, como registros de endereços e consumo de energia para realizar o policiamento preditivo. Assim, essa união entre o governo e empresas de tecnologia configura uma espécie de complexo industrial de vigilância. O resultado é a automação da repressão, em que algoritmos definem “bairros-alvo” e otimizam a definição da localização e a captura, transformando distritos com a presença de imigrantes em zonas de monitoramento intensivo sob uma justificativa de eficiência técnica que mascara o perfilamento racial.
Por fim, as implicações sócio-raciais desta “vigilância de precisão” são profundas. Além da vulnerabilidade tecnológica, dada a alta taxa de erro em algoritmos de reconhecimento facial para populações não-brancas, o uso sistemático dessas ferramentas gera um efeito de inibição (chilling effect). Quando a rotina comunitária, como ir ao trabalho ou à escola, é mediada pelo risco de um escaneamento obrigatório, ocorre a desarticulação das redes de apoio social.
A exclusão migratória, portanto, manifesta-se agora de forma digital: uma barreira invisível, mas onipresente, que criminaliza a circulação e impõe um estado de vigilância perpétua sobre o corpo latino nos Estados Unidos.