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Perspectivas da 67ª edição do Grammy Awards: estaria a comunidade latina inserida na agenda progressista anunciada pela Academia?

Giovani Paschoalino de Souza Oliveira / João Marcelo Lopes Silva | 27/02/2025 13:48 | Análises
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A 67ª edição do Grammy Awards, realizada em 2 de fevereiro deste ano, foi um evento marcado por contrastes: celebrações artísticas, discursos políticos e momentos de tensão que refletem as complexidades da experiência latina nos Estados Unidos. Dentre os principais artistas contemplados com gramofones na noite estão nomes como Beyoncé, Kendrick Lamar e Shakira. 


Além da entrega de estatuetas, a noite da premiação foi marcada por momentos memoráveis e polêmicos. Um deles foi o anúncio de mudanças e modernizações no sistema de votação da Academia. Outro ponto de destaque foi a ausência do artista brasileiro Milton Nascimento na cerimônia principal. Apesar de indicado na categoria de “Melhor Álbum Vocal de Jazz” em conjunto com a cantora Esperanza Spalding, Nascimento não foi convidado a se sentar entre as mesas principais da premiação. 

 

A agenda progressista anunciada pela Academia  

 Conhecidas como “big four”, as categorias de “Álbum do Ano”, “Música do Ano”, “Gravação do Ano” e “Melhor Artista Revelação” são consideradas as principais da premiação. Entre os premiados desta edição estão Beyoncé, Kendrick Lamar (ambos nas categorias de Música e Gravação do Ano) e Chapell Roan, respectivamente. 


É evidente como os mais de 13.000 membros da Academia decidiram contemplar artistas com origens em minorias socioculturais nas principais categorias. Beyoncé, mulher negra, sempre fez uso de suas raízes como forma de empoderamento em sua carreira; Kendrick Lamar, homem negro, é um dos maiores nomes da história do rap e hip-hop; e Chapell Roan, mulher assumidamente lésbica e performer drag, representam a diversidade que a Academia buscava destacar. 


Esses quatro prêmios entregues não apenas representam um momento inédito e excepcional na premiação, mas também refletem uma mudança estrutural. Durante a exibição da edição do Grammy Awards deste ano, o CEO da Academia, Harvey Jay Mason Jr., anunciou uma nova agenda progressista entre os votantes da Academia: “Quando assumi essa posição em 2020, eu queria que a organização mudasse e se modernizasse para que pudéssemos ser melhores e servir essa comunidade musical de forma dinâmica e global”. [...] Refizemos completamente nossa associação, adicionando mais de 3.000 mulheres como membros votantes. O eleitorado do Grammy agora é mais jovem. Quase 40% são pessoas negras, indígenas e de outras raças e etnias. [...] É um sistema enraizado na justiça, integridade e no princípio de que todos tenham voz em nossa comunidade.  


Como último ato da noite, Beyoncé foi contemplada com o maior prêmio da cerimônia, levando o gramofone de “Álbum do Ano” pelo seu projeto “Cowboy Carter”. A vitória da cantora na principal categoria da premiação demonstra o rápido impacto da agenda progressista da Academia, anunciada poucos minutos antes. Beyoncé se tornou a primeira mulher negra neste século a vencer tal categoria no Grammy, quebrando um intervalo de 26 anos. Até então, o disco “The Miseducation of Lauryn Hill”(1999), da rapper Lauryn Hill, a colocava como a última mulher negra ganhadora da categoria. 


A trilogia de álbuns que Beyoncé construiu desde o início da década não se priva de abordar temas políticos. O disco “Lemonade”, lançado em 2016 — e inclui a faixa “Formation”, performada no Super Bowl de 2016, onde Beyoncé apresenta palavras de ordem contra a violência policial contra negros e latinos nos Estados Unidos —, assim como seu penúltimo álbum, “Renaissance”, que resgata a cultura ballroom, popularizada por LGBTs+, negros e latinos nos anos 1980 nas periferias dos Estados Unidos, não recebeu gramofone nas categorias principais do Grammy.


[...] “O Renaissance é sobre liberdade, beleza, alegria, resiliência e tudo o que vocês são. [...] É muito importante para mim estar aqui na Bahia. Não tem ninguém como vocês”. Discursou a cantora em visita ao Brasil, em dezembro de 2023, para o lançamento do filme “Renaissance: A Film by Beyoncé” na cidade de Salvador, capital do estado da Bahia.

 

A permanência do debate imigratório

Um dos momentos mais emblemáticos da noite foi a vitória da cantora colombiana Shakira, que levou para casa o prêmio de Melhor Álbum Pop Latino com o aclamado disco “Las Mujeres Ya No Lloran”. No entanto, a noite também foi manchada por uma piada xenofóbica do apresentador Trevor Noah, que gerou indignação e reações imediatas. 


Shakira, uma das artistas latinas mais influentes de todos os tempos, usou seu momento no palco para fazer um discurso emocionado e político. Ao receber o prêmio das mãos de Jennifer Lopez, ela dedicou a vitória “a todos os meus irmãos e irmãs imigrantes” nos EUA, afirmando: “Vocês são amados. Vocês valem a pena, e eu sempre lutarei com vocês.” A cantora também homenageou “todas as mulheres que trabalham muito duro todos os dias para sustentar suas famílias”, destacando a resiliência e a força das mulheres latinas em um contexto de desafios sociais e econômicos. Suas palavras simbolizaram um ato de resistência em meio a um cenário político turbulento, marcado por políticas de imigração restritivas e discursos anti-imigrantes. 


No entanto, a noite também foi marcada por um momento de insensibilidade. O apresentador Trevor Noah, que assumiu o palco do Grammy pelo quinto ano consecutivo, fez uma piada de cunho xenofóbico ao se referir à Colômbia, país natal de Shakira. Ele brincou: “Shakira é a única coisa grandiosa que saiu da Colômbia e não é considerada um crime grave”. Além disso, ao explicar o processo de votação da Recording Academy, Noah fez uma referência ofensiva ao incluir “milhões de imigrantes ilegais” como parte do júri. Essa atitude reforça como a pauta da imigração, além de ser discutida diariamente no país, está presente não apenas no escopo político e econômico, mas também na indústria artística e de entretenimento dos Estados Unidos


Neste intervalo de tempo entre a edição da premiação deste ano e a próxima, em 2026, paira no ar a dúvida se essa frente progressista da Academia incluirá e dará mais enfoque a artistas latinos. Na edição deste ano, somente a cantora Shakira recebeu grande atenção na cerimônia como artista latina, com uma apresentação e um gramofone. Além disso, a agenda conservadora do governo de Donald Trump deve impactar a dinâmica da premiação nas próximas edições. O choque entre o governo de Washington e as grandes premiações de Hollywood é inevitável, a nova agenda de progresso anunciada pela Academia deve trazer consigo manifestações sociopolíticas dos votantes simbolizadas entre os próximos indicados e contemplados da premiação. Manifestações como essas já puderam ser vistas na edição deste ano, um exemplo é o discurso da cantora norte-americana Lady Gaga ao aceitar o prêmio de “Melhor Performance de Duo/Grupo Pop”: “Eu só quero dizer hoje à noite que pessoas trans não são invisíveis. Pessoas trans merecem amor [...] a comunidade queer merece ser elevada. Música é amor.” Disparou a cantora em protesto às medidas do governo de Trump que derrubaram as políticas de diversidade, como o não reconhecimento de pessoas transexuais, em documentos oficiais do governo norte-americano.


Artistas latinos previstos para lançar projetos em 2025, como Bad Bunny, Tokischa e Anitta, entre outros nomes, poderão sanar as dúvidas de como a comunidade latina será, ou não, inserida na nova agenda progressista da Academia, entre indicações de seus trabalhos e visibilidade com performances no palco principal da premiação. Bad Bunny deve liderar a campanha entre os artistas latinos  no Grammy Awards de 2026, sendo o artista latino de maior impacto nos Estados Unidos atualmente. Seu último álbum, lançado em janeiro deste ano, e intitulado de "Debí Tirar Más Fotos" traz consigo uma homenagem aos ritmos locais e uma mensagem contra o apagamento cultural na ilha de Porto Rico, que atualmente pertence aos Estados Unidos com um status de território ultramarino. A mensagem política do projeto do cantor porto-riquenho deve ser um dos principais temas de debate da próxima edição da premiação, em conjunto com a escalada das problemáticas relacionadas às políticas de deportação de imigrantes latinos do atual governo Trump.  

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